8.11.09

A UNIBAN É UM PUTEIRO

A UNIVERSIDADE BANDEIRANTE (UNIBAN) informou neste sábado, por meio de anúncio publicitário nas edições de alguns jornais de São Paulo, que a estudante de turismo Geisy Villa Nova Arruda foi desligada do quadro discente da instituição, "em razão do flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade".

publicado no GLOBO ON LINE em 07 de novembro de 2009

Os fascistas que comandam o puteiro-acadêmico dão - e como tenho repetido isso... - coerência e explicam muito sobre a reação estúpida de seus alunos que estudam em uma universidade de merda, fazem merda e submergem na merda (pagando por tudo isso).

Desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade é manter aberta uma merda como a UNIBAN.

Até.

P.S.: recomendo a leitura do texto (visionário, in casu) O CASO GEYSA, de autoria de Carlos Andreazza, pré-desligamento, aqui.

7.11.09

JUAREZ BECOZA, UMA DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS

Ontem, sexta-feira, muita gente - muita mesmo - bateu o telefone pra mim, como se eu fosse uma bucha na qual atiravam, meus interlocutores, querosene e fósforo aceso. Queriam porque queriam que eu sentasse o chicote imaginário na reportagem (desprezível e sem merecer qualquer comentário além da golfada de praxe das sextas-feiras) de capa da revista RIO SHOW. Como eu não entendo nada de lorde, de flâneur, de connaisseur - essas afetações -, me absterei de dizer uma palavra que seja sobre a matéria assinada por Nelson Vasconcelos.

Mas não posso fazer o mesmo com relação ao texto que escreveu, para a mesma matéria, Juarez Becoza. Eu, que tantas críticas tenho feito aqui à forma como o jornalista Paulo Mussoi (são a mesma pessoa) conduz sua coluna PÉ-SUJO, e que tenho recebido, de volta, críticas por conta disso, preciso exibir, no balcão imaginário do BUTECO o que está lá, estampado na revista.

publicado na revista RIO SHOW do jornal O GLOBO de 06 de novembro de 2009

Dá ou não dá consistência a tudo o que venho dizendo, e há anos?

Eu, amante da boemia pura e simples (desconheço o que seja "boemia científica"), até que gostei de ler a coisa (a "boemia científica" talvez seja, estou aqui elucubranco, a que se preocupa mais com o limão do mictório do que com o limão da casa).

Tudo isso dá, de fato, uma coerência ainda muito maior à luta proposta por Luiz Antonio Simas, aqui.

Ou o Juarez desconhece que, justamente por conta desse movimento (que ele louva!, que ele louva!) que faz os butecos trilharem o mesmo caminho do samba (e refiro-me, aqui, precipuamente, às escolas de samba), é que os nossos butecos mais autênticos e genuínos estão se transformando numa espécie de Acadêmicos da Grande Rio?!

Faça-me o favor!

Até.

6.11.09

MULHERES NO ESTÁDIO DE FUTEBOL

Pronto! Hoje, sim, volto ao tema que restringiu-se ao título do texto que publiquei ontem, aqui. Sentei-me ontem, cedíssimo, diante do computador com o firme propósito de falar sobre o assunto que foi engolido sabe-lá por quê. E decidi falar sobre ele depois da noite de segunda-feira, quando fechamos a noite, eu e mais um grupo de amigos (nesse exercício salubérrimo que nada tem a ver com preguiça como querem fazer crer os pobres-diabos que pululam por aí), no GALETO COLUMBIA, fabuloso bar na esquina da Afonso Pena com a Haddock Lobo e sua monstruosa calçada que invadiu a rua de forma comovente, e suas dezenas de mesas espalhadas do lado de fora, e seu gigantesco toldo (que naquela noite nos abrigou da chuva), e seu chope cremoso e sua comida fora-de-série, e uma quantidade absurda de barrigas indecentes, mulheres bonitas e crianças, sempre muitas crianças - cenário clássico na minha Tijuca, muito mais humana e mais bacana do que se possa imaginar.

O que eu estava dizendo?!

Ah, sim.

À certa altura da noite (foram mais de 50 chopes), eu disse com o bigode branco que o colarinho cria:

- A maciça presença das mulheres nos estádios contribui, e muito, para o fim do futebol.

Eu disse isso e fui ao banheiro, deixando a mesa em polvorosa.

Notem, meus poucos mas fiéis leitores, que não sou exatamente um polêmico. Dito isso, vamos esmiuçar o tema.

Eu sou do tempo em que o Maracanã era um templo de concreto onde se bebia cerveja de forma industrial. Lembro-me de chegar, diversas vezes, às 13h (ou até antes, como no caso da final entre Flamengo e Santos, no Campeonato Brasileiro de 1983, quando entrei no gigante às 11h45min da manhã!) para o jogo das 17h (não havia essa prostituição de horários comandada pelos gigolôs da TV, os jogos eram sempre às 17h) só pra ficar no bar ouvindo samba e bebericando devagar (eu, é claro, afinal eu tinha 14 anos...). Eu sou do tempo do cachorro-quente da Geneal, do vendedor de mate e de limão, do vendedor de bandeira disputando espaço entre bundas, pernas, barrigas e cabeças espremidas nas arquibancadas livres e sem cadeiras de plástico. Sou do tempo da geral, dos geraldinos, e sou do tempo em que aquilo era um Coliseu de bárbaros e seus radinhos de pilha que, diante da imagem da raríssima mulher apontando numa das entradas da arquibancada, gritavam num coro afinadíssimo:

- Piranha! Piranha! Piranha!

Era tudo um ritual plástico, apenas. Ninguém tocava na rara, na escassa, na bissexta, na ocasional torcedora. Ela, por sua vez, sorria e rebolava, dava acenos, jogava beijos, e tudo ficava por isso mesmo. Ela fazia o papel, digamos assim, das gostosas que desfilam pelo ringue, nas lutas de boxe, levantando a placa com o número do próximo round de cada luta. Era puro sarro, diversão garantida. Poucas mulheres - e acho que poderia contá-las nos dedos de uma única mão - não mereciam o coro: Dulce Rosalina Ponce de León e suas pulseiras do punho ao cotovelo, torcedora-símbolo do Vasco, Laura de Carvalho, rubro-negra de escol e Rute Araújo Rodrigues, do America (Botafogo e Fluminense, que eu me lembre, não tinham nada do gênero). E só.

O que se vê hoje?

Antes de hoje quero lhes contar um troço (foi quando comecei a me incomodar com a proliferação de mulheres nos estádios).

Antes de lhes contar o que quero, vamos ao que disse Nelson Rodrigues no fabuloso À SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS: CRÔNICAS DE FUTEBOL:

trecho do livro Á SOMBRA DAS CHUTEIRAS IMORTAIS: CRÔNICAS DE FUTEBOL, de Nelson Rodrigues

Nelson falava sobre o futebol de 1911, um ano antes de seu nascimento. Referia-se ele, por óbvio, às Dulces Rosalinas da época, às mulheres que "usavam umas ancas imensas e intransportáveis", em aguda oposição às famélicas, às saradas, às anoréxicas de hoje. Voltemos a mim.

Era 12 de julho de 1989. O Brasil enfrentaria, à noite, no Maracanã, a Argentina, pela Copa América. Eu comprara, semanas antes, meus ingressos para o jogo (fui com meu queridíssimo Marcelo Vidal). Para vocês terem uma idéia, enfrentamos um tumulto até então sem precedentes para entrar no estádio. Vidal, eu bem me lembro, chegou a ser atingido por um rolo de fumaça de gás lacrimogêneo depois de atravessarmos patas e mais patas de cavalos da polícia na entrada da UERJ (a do Belini estava ainda mais insuportável). No interior do estádio, quando comia solta a roubalheira quanto ao público pagante, exatas e precisas 100.135 pessoas. Pois bem... Entramos, subimos a rampa, entramos à direita e fomos sentar atrás do gol, e já não havia lugares disponíveis (quem é dessa época sabe do que estou falando).

Uma quantidade inacreditável de moças, divorciadas do cenário, gritava:

- Branco, cadê você?

- Bebeto, gostoso!

- Ricardo Gomes! Ricardo! Eu te amo.

Outra, mais deslocada:

- Caniggia! Quero você! Quero você!

Esses troços.

Estacamos diante de um bloco feminino, pedimos licença e sentamos.

- Ai, moço, não vê que não tá dando?

Acendi o cigarro.

A ninfeta do meu lado:

- Ui! Que horror! Apaga esse cigarro! - e ficou abanando o próprio rosto com carinha e boquinha de nojo.

Dissemos uma meia-dúzia de palavras impublicáveis, as mocinhas choraram e foram sabe-se lá pra onde. Lembro-me vivamente do Vidal recomendar às moças, candidamente, quando elas já se retiravam do nosso lugar, que fossem pra casa ver O SALVADOR DA PÁTRIA. Fecha o pano.

Hoje, nos estádios, há mulheres por todos os cantos (e quase nenhuma Dulce Rosalina).

É evidente que não me refiro, aqui, às Dulces Rosalinas de amanhã: Betinha, Lelê Peitos, Leonor Macedo, essas moças que discutem futebol de igual pra igual, que xingam como o mais impolido dos geraldinos (que não existem mais...), que lamentam o fim da cerveja nos estádios, que fazem o diabo por seus times.

Falo das moças festivas, se é que me faço entender, das moças sem ancas e sem celulite, das moças que não suam e que não fedem (o cê-cê é imprescindível para a grandeza do espetáculo).

Das que vão ao estádio com seus namorados (pitboys geralmente sem camisa, portando cordões de prata da grossura da coleira de um cão feroz), que acham brega o radinho de pilha, que dão graças a Deus pela ausência de bebida alcóolica, que adoram as cadeirinhas insuportáveis de plástico, que cantam esses detestáveis hits que as torcidas organizadas vêm dando de inventar, que fazem auto-retratos durante as partidas e os enviam, pelo celular, a fim de aparecerem no placar do estádio (pelo Brasil afora também tem isso?). Dessas moças que vão ao estádio como quem vai a uma festa rave.

As anti-torcedoras.

É a essas moças que me refiro.

Se você solta um palavrão cabeludo, daqueles que os estádios pedem (é preciso que haja um flanar permanente de palavrões no ar), elas te olham feio (e os maridos, as bestas que as carregam pro estádio, também), te repreendem, e é bem capaz de um pitboy te ameaçar como demonstração equivocada de carinho.

Essas mulheres nos estádios de futebol são um componente a mais dentro dessas estrutura que vem, aos poucos, acabando com o espetáculo. É como o cara que dá mais atenção ao limão do mictório do que ao limão da casa, sabem como?

Até.

5.11.09

MULHERES NO ESTÁDIO DE FUTEBOL

Quando eu fui chamado de "polemista" e de "dissidente de si mesmo" fiquei pensando com meus botões (que andam esgarçados por conta da barriga indecente que carrego) se aquilo era fato ou apenas uma provocação. Não sei até hoje, confesso a vocês, meus poucos mas fiéis leitores. Quero crer que as supostas polêmicas que crio são fruto apenas da exposição pública das minhas idéias aqui neste humílimo balcão. Toda e qualquer questão que venha à baila - toda! - é geradora de discussões, de divergências, de controvérsias, e aí vem o rótulo (muito justo, aliás, acabei de chegar a essa conclusão) da polêmica. Sou, pois, um polemista. Pronto. Vamos em frente.

Polemizo porque digo o que penso, polemizo porque aponto o dedo (não o acusador no sentido mais sórdido da palavra) em direção ao que acho errado, fazendo do dedo o apontador das posturas que destroem o que me é mais caro, e sobre isso já disse tudo, ontem, meu mano Luiz Antonio Simas (aqui). Acho fundamental esse troço. Travo com o mesmo Simas, com quem tive a honra e a graça de cruzar por conta desse fabuloso mundo virtual (vejam aqui como e quando travei o primeiro contato com o bardo da Tijuca, em 18 de agosto de 2006), discussões acaloradas sobre essa minha postura, que ele condena (ele tem razão, ele tem razão...) por achá-la semelhante ao gesto de acender muita vela pra pouco defunto.

Foi assim quando critiquei o jornal O GLOBO por entrevistar um colecionador de bonecas (que terminou indo à Justiça em busca de indenização, sem êxito), foi assim quando comecei a apontar meu dedo em direção aos fascistas que criaram o GRUPO GRANDE TIJUCA, que pisoteia, estupra e cospe na cara do bairro onde nasci e fui criado, foi assim quando critiquei o colaborador do GUIA RIO BOTEQUIM que batalhou pela exclusão do BIP BIP, um buteco que JAMAIS (com a ênfase szegeriana) poderia ficar de fora do guia, fosse qual fosse o argumento (e o que foi dado foi pífio).

Vai daí que eu acho, mesmo, fundamental que se faça o contraponto. Se isso se dá por conta de Ogum, que me rege, se isso se dá por força do hábito do contraditório (ou teria preferido outra profissão que não a de advogado), se isso se dá pelo simples fato de que sou mesmo um polemista, não sei, confesso que não sei. Mas acho salutar que haja alguém acendendo velas no escuro para que a cara desses elementos, a quem o Simas chama de "pouco defunto", venha à tona. Se tem um troço do qual me orgulho é o fato de não me faltar coragem para dar nome aos bois. E lamento profundamente que esses mesmos elementos se valham, depois, de expedientes covardes (nunca não dão nome aos "bois" que os incomodam) para o que talvez eles chamem de réplica. Vamos aos exemplos (eis-me aqui, de novo, com o dedo em direção a eles).

O sr. Fabrício Longo, o que foi à Justiça em busca de indenização por conta da minha crítica ao jornal que o entrevistou, relembrem o imbróglio aqui), recentemente escreveu o seguinte (ele tinha um blog que foi oló mas inaugurou outro), quando comentava sobre a parada gay realizada no domingo passado, em Copacabana:

"Choveu do início ao fim, mas isso não desanimou o povo. Hoje, veio a coroação. Apesar de ainda ser um título discutível, as preces do meu homofóbico detrator virtual não deram em nada (Deus devia ter mais o que fazer...), e o Rio foi escolhido como o melhor destino gay do mundo. Isso é ótimo para a cidade olímpica, pois mesmo que ainda estejamos longe do ideal, é mais um estímulo para chegar lá (o melhor destino americano é Nova York, and boy, we will be together again!)."

Covarde (não diz meu nome), ele precisa saber que é grave o que diz sobre mim: não sou homofóbico, não detratei ninguém e a prestação jurisdicional que lhe foi entregue deveria ter sido suficiente para o arquivamento definitivo de suas pretensões.

Tem mais.

A sra. Samila Soares, membro do GRUPO GRANDE TIJUCA - e a quem também não conheço -, também de forma covarde (não diz meu nome nem o das pessoas as quais se refere), à moda do que fez o sr. Fabrício Longo, escreveu o seguinte (não corrigi, evidentemente, o que a referida senhora publicou, pontuação, nada):

"Passeando pela internet encontrei várias chamadas a nosso respeito, melhor dizendo referentes ao Grupo Grande Tijuca. Descobri também que algumas pessoas usam nossas postagens, quase que diariamente, como base para seus assuntos chulos, e de pouco recheio para junto, com seus seguidores, terem o que comentar. Ficaria até lisonjeada se os tais parasitas não fossem pessoas tão sem brilho e tão sentido. Enfim, cada louco com sua mania!!!"

Ela, então, age de forma ainda mais grave. Nem digo sobre o fato dela achar que os assuntos aqui tratados são chulos. Aqui eu trato da cidade do Rio de Janeiro, das nossas mais caras tradições, e ninguém é obrigado a gostar disso, por óbvio. Mas sim pelo fato de que fomos chamados (sem um único nome declinado), e eu digo nós porque falo de mim e dos leitores que fazem seus comentários aqui no BUTECO, de "parasitas". PARASITA, segundo Houaiss, é:

"adjetivo de dois gêneros e substantivo masculino
1 Rubrica: biologia.
diz-se de ou organismo que vive de e em outro organismo, dele obtendo alimento e não raro causando-lhe dano
2 Uso: pejorativo.
diz-se de ou indivíduo que vive à custa alheia por pura exploração ou preguiça
3 Rubrica: medicina.
diz-se de gêmeo que tira seu sustento de outro quase normal"


Como diria meu eterno e saudoso Governador Leonel de Moura Brizola, francamente...

Quem é que vive na cidade do Rio de Janeiro e, não raro, causa-lhe dano?!

Peço perdão, publicamente, a meu mano Luiz Antonio Simas. Mas não é possível o silêncio diante disso.

Até.

P.S.: o título do texto ficou MULHERES NO ESTÁDIO DE FUTEBOL porque eu sentei-me aqui, diante do computador, disposto a escrever sobre o assunto, do qual tratarei amanhã. Sabe-se lá por qual razão, mudei o curso do trem.

4.11.09

DO PORTO AO BOTEQUIM - UM CHAMADO AO BOM COMBATE

Meu mano Luiz Antonio Simas, que mantém o blog mais bacana do Brasil, o HISTÓRIAS BRASILEIRAS, me fez chorar, agora pela manhã, de uma emoção que só compreende aquele que ama a terra em que vive, o povo com o qual convive, as ruas por onde anda, os butecos nos quais se embriaga dessa paixão que é incompreensível para aquele que, em aguda oposição a isso, tem nojo da terra, do povo, da rua e do buteco. Com o texto DO PORTO AO BOTEQUIM - UM CHAMADO AO BOM COMBATE (que pode ser lido na íntegra aqui), o bardo morador da Tijuca (mais precisamente do Maracanã), visivelmente comovido (posso apostar que ele molhou o teclado enquanto escrevia), disse algumas verdades que faço questão de reproduzir:

"Ando cabreiro com algumas coisas que estão acontecendo nas ruas cariocas. Aqui perto de casa, por exemplo, as notícias não são das melhores. Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde. (...). A Lapa, por sua vez, agoniza. Virou valhacouto de adultescentes, simulacro de berço do samba, com bares que vendem bebidas por preços proibitivos e que visualmente lembram a lanchonete da entrada do Memorial do Carmo, no cemitério vertical do Caju - um lugar mais digno para se beber, diga-se. O Nova Capela [cada vez mais Nova e menos Capela] hoje é atração turística para uns basbaques que encaram uma ida ao velho bar como uma espécie de safari no Quênia e saem dizendo que foi uma experiência inesquecível. O Bar Brasil resiste com bravura, mas até quando? (...). Como estou encafifado com esses troços, reli dia desses um arrazoado que escrevi faz tempo sobre a agonia dos nossos botequins de fé e a necessidade quase quixotesca de se lutar pela preservação de um certo modo de vivenciar a cidade e o bar. São aquelas reflexões que, em boa parte, retomo nesse texto. Faço isso porque esse combate me parece mais urgente do que nunca. (...). Vivemos, e isso não é novidade alguma, tempos de uniformização dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado. Em cada canto desse mundaréu, ligado por redes transnacionais de telecomunicações, as pessoas assistem aos mesmos filmes, utilizam as mesmas roupas, ouvem as mesmas músicas, falam o mesmo idioma, cultuam os mesmos ídolos e se comunicam em cento e quarenta toques virtuais. Nessa espécie de culto profano, em que a vida cotidiana é regida pelos rituais em louvor ao mercado que não é o de Madureira, o bicho pega e as ideias morrem, como outro dia morreu de morte matada o acento em ideia, sem choro nem vela e sem a dignidade de um samba do Noel. (...). Ocorre que essa valorização extremada do tempo presente é acompanhada pela morte das utopias coletivas de projeção do futuro. Não há mais futuro a ser planejado. Somos guiados pelos ritos do mercado e abandonamos o mundo do pensamento, onde se projetam perspectivas e são moldadas as diferenças. Restam hoje, talvez, duas tristes utopias individuais, em meio ao fracasso dos sonhos coletivos - a de que seremos capazes de consumir o produto tal, cheio de salamaleques, e a de que poderemos ter o corpo perfeito. Transformam-se , nesse tempos depressivos, os shoppings centers e as acadêmias de ginástica nos espaços de exercício dessas utopias tortas, onde podemos comprar produtos e moldar o corpo aos padrões da cultura contemporânea - o corpo-máquina dos atletas ou o corpo-esquálido das modelos. É a procura da felicidade que não tem, como na esquecida e sábia canção natalina. E tome de caixinhas de Prozac no sapatinho na janela. É aí, e eu queria falar disso desde o início, que localizo na minha cidade de São Sebastião o espaço de resistência a esses padrões uniformes do mundo global - o botequim. Ele, o velho buteco, o pé-sujo, é a ágora carioca. O botequim é o país onde não há grifes, não há o corpo-máquina, o corpo-em-si-mesmo, a vitrine, o mercado pairando como um deus a exigir que se cumpram seus rituais. O buteco é a casa do mau gosto, do disforme, do arroto, da barriga indecente, da grosseria, do afeto, da gentileza, da proximidade, do debate, da exposição das fraquezas, da dor de corno, da festa do novo amor, da comemoração do gol, do exercício, enfim, de uma forma de cidadania muito peculiar. É a República de fato dos homens comuns - cenário não habitado pelos personagens de novelas do Manoel Carlos. É nessa perspectiva que vejo a luta pela preservação da cultura do buteco como algo com uma dimensão muito mais ampla que o simples exercício de combate aos bares de grife que , como praga, pululam pela cidade e se espalham como metástase urbana. A luta pelo buteco é a possibilidade de manter viva a crença na praça popular, espaço de geração de ideias e utopias - sem viadagens intelectuais, mas fundadas na sabedoria dos que têm pouco e precisam inventar a vida - que possam nos regenerar da falência de uma (des)humanidade que limita-se a sonhar com o tênis novo e o corpo moldado, não como conquista da saúde, mas como simples egolatria incrementada com bombas e anabolizantes cavalares. O botequim é, portanto, e não abro mão do hífen, o anti-shopping center, a anti-globalização, a recusa mais veemente ao corpo-máquina dos atletas olímpicos ou ao corpo pau-de-virar tripa das anoréxicas - corpos que se confundem na doença comum desse mundo desencantado: Metáforas da morte. Ali, no velho buteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito cu de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência : Laroiê ! Esse combate, amigos, é muito mais significativo do que imaginam os arautos modernosos e seus programadores visuais. Botequim tem alma, é entidade, feito os trapiches e sobrados do cais do porto em noite de lua cheia."

Como vocês podem notar, reproduzi quase na íntegra mais essa lição do mestre.

Como eu não tenho a verve do professor (sou, assumidamente, um aplicado aluno do Simas), quero me ater apenas à grave denúncia que ele fez no primeiro parágrafo de seu arrazoado.

Para isso, ilustro o texto de hoje com o maracujá que é servido no BAR DO CHICO, portentoso buteco tijucano na esquina da Pardal Mallet com Afonso Pena (a "barriga indecente" ao fundo é minha!).

maracujá do BAR DO CHICO, 06 de setembro de 2009, foto de autoria de Leonardo Boechat

Sobre o BAR DO CHICO, escreveu o Simas:

"Um botequim que costumo frequentar, o Bar do Chico, inventou uma reforma meio mandrake, que incluiu pizza no cardápio, visual moderninho, garçom de gravata e, é claro, aumento dos preços dos produtos. Botequim, já não é mais. Periga virar um playground de bêbados com rodízio de pizza depois das seis da tarde."

Triste verdade.

Guiado pelos "tempos de uniformização dos costumes, fruto deste tal de mundo globalizado", nosso bom Chico - que é um tremendo boa-praça, grosso pra burro quando quer defender seus pontos de vista, ingrediente fundamental que faz dele um grande personagem, e ao mesmo tempo um amigo dos amigos - pisou na bola.

Com o fruto de seu trabalho, foi comprando, aos poucos, os imóveis contíguos a seu buteco. Uma locadora, um salão de beleza, e eis que de repente começou uma obra que, desde o primeiro tijolo quebrado, deixou sua clientela de alerta ligado (situação idêntica, por exemplo, a que viveu o Joaquim, do outrora glorioso RIO-BRASÍLIA - relembrem o imbróglio completo lendo, de baixo para cima, isso aqui).

Na segunda-feira, como lhes contei ontem, fomos ao BAR DO CHICO.

Não mais encontramos o doutor Lauro, um garçom de alta estirpe (pediu as contas, sabe-se lá se desolado com a nova situação do bar).

Senti-me numa floresta, tamanha a quantidade de borboletas nos pescoços dos garçons novos que bailavam pela calçada.

O BAR DO CHICO, o autêntico, o fascinante, ainda está lá, na mesmíssima esquina, com os mesmos azeulejos amarelos e brancos, com o mesmo Antônio e o mesmo Chicão no comando do balcão. Mas ao lado... mas ao lado...

Um elefante branco em forma de restaurante que contaminou, temo que irreversivelmente, o velho e bom buteco da esquina.

A cerveja passou dos honestos R$ 3,50 para R$ 5,00 (já baixados para ainda altíssimos R$ 4,00, o esparadrapo no cardápio não esconde o crime).

No tal cardápio, monstruosidades. Uma salada (salada, meu Deus?!) de alface, tomate e palmito a proibitivos R$ 12,50. Uma porção de frango a passarinho a R$ 15,00! Pratos de bacalhau que, segundo Luiz Carlos Fraga, custam mais caro que os que são servidos no ANTIQUARIUS, no Leblon. Os 10%, jamais cobrados, estão lá, na conta que nos chega pelas mãos dos gravata-borboleta. E pizza, meus poucos mas fiéis leitores, pizza!

A pizza é como dinamite para um buteco. Pintou a pizza na área, pronto: implode-se o buteco. Aquilo virou, e digo isso com profunda dor, eis que bebíamos ali domingo após domingo, o anti-buteco.

Torço, e isso é a mais pura verdade, para o absoluto sucesso do Chico, que ele merece. Mas eu vou ficar, enquanto conseguir suportar os efeitos devastadores da mudança, como ficaram TODOS os fiéis fregueses do bar no dia do feriado: sentado na esquina, na calçada da Afonso Pena, longe da visão do restaurante, tétrico, fora de propósito, e completamente às moscas enquanto lá fiquei.

Mas não há de ser nada.

Haveremos de encontrar outro pouso, outro porto, outro buteco vagabundo, outro que não ceda às tentações do mercado e à onda da uniformização de costumes.

A Tijuca é farta na matéria.

Até.

3.11.09

CADA UM TEM O DOMINGO QUE MERECE

Cada um tem mesmo o domingo que merece. Enquanto os fascistas daquele blog cujo nome não pronuncio - os tais que se dizem membros do GRUPO GRANDE TIJUCA, e atentem para o nome que remete ao que há de pior em matéria de... isso deixa para lá! -, depois de atentarem contra os bares e botequins da Tijuca, depois de atentarem contra as mais salutares iniciativas da Prefeitura em prol dos menos favorecidos, agora fazem o quê?! Atentam contra o futebol. Prestem atenção a trechos do último texto lá publicado (e como escrevem mal!!!!!):

"Como o Rio pretende realizar uma COPA DO MUNDO, se não consegue colocar um mínimo de ordem em simples jogos do Campeonato Brasileiro? (...) Quem mora, passa ou anda por estas regiões sofre com o "assédio" dos flanelinhas bandidos, com a falta de calçada e com a bagunça em frente às suas residências, (...). (...). Não quero morar numa cidade sem lei. Não quero ser obrigado e sair do meu prédio e ficar desviando de carros. Quero poder ter o direito de sair com meu filho no carrinho e andar livremente pelas calçadas da região onde moro e pago muito por isso. (...). Está cada vez pior morar nesta cidade. Tudo de ruim que uma cidade pode ter, o Rio tem e quando as autoridades precisam se mostrar presentes, somem!"

É ou não é um nojo?

Enquanto isso, enquanto os fascistas faziam sua ronda para coletar material a fim de denunciar, denunciar, denunciar, denunciar..., juntamo-nos - não no domingo, como de praxe, mas ontem, segunda-feira, feriado, dia do aniversário desse brasileiro e tijucano máximo, Luiz Antonio Simas - para beber, jogar conversa fora, discutir futebol, política, para brindar à graça da vida e para erguer o copo em homenagem ao aniversariante.

Encontrei-me com meu velho e amado pai pouco antes das onze horas no BAR DO CHICO. De bicicleta, egresso de Ipanema, chegou logo em seguida essa grande figura que é Luiz Carlos Fraga. Em seguida, Marcelo Moutinho e sua Flavinha, ele que, gentilíssimo, levou de presente uma camisa do Império Serrano pro meu velho. Em seguida, os aguardadíssimos Simas e Candinha.

Luiz Carlos Fraga e Isaac Goldenberg, BAR DO CHICO, 02 de novembro de 2009
Flavinha, Marcelo Moutinho e Candinha, BAR DO CHICO, 02 de novembro de 2009
Luiz Antonio Simas, BAR DO CHICO, 02 de novembro de 2009

Ali começamos a tarde, e o dia terminou mesmo na nossa Tijuca, no GALETO COLUMBIA, infinitamente maior e melhor do que a Tijuca que pintam os fascistas e que deles prescinde.

É como eu disse: cada um tem o domingo que merece.

Até.

30.10.09

A INSUPERÁVEL RIO SHOW

Eu quero repetir hoje uma frase que venho dizendo há anos e que seria, confesso, inimaginável há anos: tenho aguda saudade do doutor Roberto Marinho que, se vivo fosse, não permitiria a bandalha que reina absoluta no jornal O GLOBO, mal conduzido por seus herdeiros.

Nem vou comentar sobre a capa da revista RIO SHOW de hoje, que vem encartada às sextas-feiras, e que traz a foto de um casal gay e na qual se lê o título da matéria (de autoria de Jeferson Lessa)... SER OU NÃO SER, EIS A QUESTÃO.

Isso, como diria o saudoso Stanislaw, deixa para lá.

Quero lhes falar sobre mais uma coluna de Juarez Becoza, codinome de Paulo Mussoi.

Mais uma tremenda falta de respeito, como se vê.

matéria publicada na revista RIO SHOW, de O GLOBO, de 30 de outubro de 2009

Além de trazer uma fotografia de 2008 - o que pode significar que o jornalista sequer esteve lá -, a coluna faz uma crítica babaca ao cardápio bem humoradíssimo, escrito em inglês, que os donos criaram para atender à enorme clientela estrangeira que têm.

Diz o jornalista: "Para completar, que Afonso e Henrique me perdoem, mas não há como...", nem vou continuar.

O que os donos, Afonso e Herminio, não devem perdoar mesmo, é a troca vergonhosa do nome de um deles.

O HENRIQUE (citado três vezes pelo jornalista) é, na verdade, HERMÍNIO.

É isso que dá (é o que me parece ter ocorrido...) buscar informações pelo telefone, e não in loco.

Detalhe: Paulo Mussoi (ou Juarez Becoza) é um dos notáveis que elaboram o novo GUIA RIO BOTEQUIM. Que tal?

Até.